Reflexões sobre Ecofascismo em tempos de Pandemia

Natascha Otoya (Georgetown University)

Muita coisa mudou em 2020. A propagação global da pandemia causada pelo novo Coronavírus criou uma realidade de distanciamento social, confinamento doméstico e uso massivo de máscaras. Aprendemos a não tocar no rosto, relembramos a importância de lavar as mãos com frequência e inventamos maneiras de nos cumprimentar, já que beijos, abraços e apertos de mão estão temporariamente banidos. Junto com essas medidas de higiene, outras formas de contenção do vírus foram desenvolvidas ao redor do mundo. Rastreamento de contato, aplicativos de controle de isolamento social, divulgação de dados de pessoas infectadas, monitoramento com drones, marcação de residências cujas famílias têm alguém doente de Covid-19, restrições de viagens aéreas e terrestres, limitação de movimentos dentro das cidades de dos bairros, aprovação de medidas sem consulta ou voto, suspensão de limites e punições para ações governamentais de emergência[1].

Da Coreia do Sul a Índia, da Hungria ao Brasil, essas diretrizes têm sido aplicadas em diversos países – em diferentes medidas – e levantam uma incômoda pergunta: em que ponto esses controles se tornam excessivos? Eu posso estar de acordo com o isolamento social e ficar em casa como mandam as autoridades – mas eu gostaria que meus dados pessoais se tornassem públicos caso eu contraia o vírus? Gostaria de ver minha porta marcada e um drone verificando se estou em casa? A maioria de nós certamente diria que não. Assim como não podemos eximir governantes de responsabilidade fiscal em gastos com a pandemia e nem devemos permitir governo por decreto. Combater a propagação do vírus não significa renunciar à privacidade e à democracia. Quando governantes agem violenta e autoritariamente, em geral são acusados de fascismo. Um autoritarismo direcionado ao controle do mundo biofísico poderia então ser classificado de ecofascismo. Mas existe mesmo algum regime ecofascista?

            Não – de fato, nunca existiu um governo autointitulado ecofascista. No entanto, é possível identificar retrospectivamente traços de autoritarismo ecológico em pelo menos dois casos históricos: o nazismo alemão e o fascismo italiano. Em uma breve definição, ecofascismo seria um ‘regime político coletivista autoritário em relação a proteção da natureza’[2]. Há pelo menos dois componentes de ecofascismo nas experiencias alemã e italiana da primeira metade do século XX.  Ambos foram regimes autoritários orgânico-corporativos, onde o individualismo era sacrificado em prol do todo – inclusive da preservação da natureza. Esta, por sua vez, era um componente essencial do racismo nativista da doutrina do ‘sangue e solo’, que propagava a conexão entre o povo e a terra. Além da apropriação da paisagem através do discurso nativista e pastoral de ligação ao solo, houve também políticas concretas como criação de parques nacionais e áreas de preservação. Tanto nazistas quanto fascistas criaram extensas leis de proteção à natureza. Mesmo a extração de recursos e mudanças da paisagem pela industrialização eram vistas como um melhoramento da natureza, ‘redenção do solo’ e ‘moralização da terra’[3].

            Assim como historicamente nenhum regime pode ser classificado como ecofascismo, no âmbito intelectual, nenhum pensador ou escola de pensamento jamais se autoproclamou ecofascista. O termo ecofascismo é usado em círculos acadêmicos e intelectuais como um rótulo acusatório do pensamento de outrem. Ao longo das últimas décadas, diversas correntes intelectuais foram acusadas de propagar ideias ecofascistas – termo que começa a aparecer nos anos 1970.  Foi nesta década que proponentes de um discurso neomalthusiano foram um dos primeiros grupos a ser rotulados como ecofascistas. Um dos maiores expoentes desse pensamento foi Paul Ehrlich, biólogo que escreveu o best-seller The Population Bomb[4]. No livro, Ehrlich sugere que uma explosão populacional causaria fome ao redor do planeta, afetando a segurança alimentar das nações com condições de manter sua produção. As soluções propostas por Ehrlich continham sugestões como a esterilização em massa em países que sofressem de escassez alimentícia e cortes de ajuda internacional para nações que não pudessem promover sua própria segurança alimentar. É fácil perceber por que essas ideias foram classificadas como ecofascistas: elas efetivamente promoviam violência física e estrutural às populações mais vulneráveis do planeta como solução para um problema ecológico: a chamada bomba populacional.

            Já na década de 1980, outro grupo acusado de ecofascismo foram os deep ecologists. De maneira mais ampla, a ecologia profunda não pode ser descrita como alinhada com ideias ecofascistas, mas alguns elementos mais radicais dessa vertente promovem um “biocentrismo” de proteção a uma suposta natureza intocada, em detrimento da própria vida humana. Um dos críticos mais contundentes a este pensamento é o historiador indiano Ramachandra Guha, que argumenta que a proteção a uma natureza pristina não se aplica ao Sul Global, onde questões ecológicas passam por densidade populacional, manejo de recursos e urbanização. Proteger a natureza em detrimento da promoção da vida humana seria impossível neste contexto – e indesejável em geral[5].

O ambientalismo radical norte-americano também recebeu acusações de extremismo, a partir dos anos 1990. Sem rotular como ecofascismo, William Cronon dialoga com este tipo de ambientalismo em seu clássico texto The trouble with Wilderness[6]. Segundo Cronon, a invenção de uma natureza selvagem (e livre de pessoas) no contexto estadunidense, foi feita através da eliminação deliberada de populações nativas. A criação de parques e reservas onde residentes urbanos (em sua maioria homens brancos) pudessem disfrutar do contato com a ‘natureza selvagem’, implicou a morte ou deslocamento forçado de seus habitantes originais – humanos e não-humanos. Cronon mostra o quanto esta noção de preservação da ‘natureza selvagem’ é artificial: “O sonho de uma paisagem natural não trabalhada é muito mais a fantasia de pessoas que nunca tiveram que trabalhar a terra para ganhar a vida”. Pessoas e árvores, cidades e florestas devem ser consideradas em conjunto. Cronon considera que a dualidade artificial entre vida urbana e natureza intocada é “uma ameaça ao ambientalismo responsável do final do século XX”.

No contexto da pandemia atual, observamos o florescimento de discursos que contém diversos elementos ecofascistas. Desde críticas xenófobas à densidade populacional chinesa e seus hábitos alimentares (classificados como ‘inferiores’ ou ‘selvagens’) ao discurso supostamente inócuo de que “nós somos o vírus”[7]. O perigo de afirmações como essa está no não-dito: nós quem? A humanidade não causa degradação planetária em igual medida. Uma pessoa nascida nos EUA afeta muito mais o planeta com seu estilo de vida do que um cidadão de Bangladesh. No entanto, clivagens raciais e socioeconômicas ficam de fora desta consideração – seriamos todos seres humanos igualmente o vírus? Muitas de nós vimos as notícias (a maioria depois verificadas como fake) de golfinhos nas águas límpidas dos canais de Veneza e semelhantes. Será que só quando saímos de cena é que a natureza se recupera? Afinal, é nossa simples presença ou o impacto do nosso estilo de vida (capitalista, industrial, globalizado, poluente) que causa tanto dano ao planeta[8]?

Levando mais adiante o discurso “humanos são o vírus”, já vimos também o adendo: “o Coronavírus é a cura”[9]. Novamente, o não-dito carrega questionamentos: que doença estamos sendo acusados de ser? E a cura seria a infecção de milhões de pessoas e a morte de uma parte delas? Ideias como a ‘imunidade de rebanho’se apoiam nestas premissas[10]. Sugerir que o vírus se espalhe livremente, e aceitar que uma parcela da população morra em consequência dessa dinâmica, é tão fascista quanto propor esterilização em massa e campos de concentração (que aliás, já foram sugeridos para a pandemia[11]). Igualmente, o discurso de ‘guerra contra o vírus’ militariza uma questão epidemiológica com uma falsa analogia:o vírus como nosso inimigo. Não, o Coronavírus é ruim para a humanidade, mas não é um inimigo bélico e não haverá vitória se nos comportarmos como se estivéssemos em guerra. Muito pelo contrário, temos que sair da lógica da competição e partir para a colaboração, com a ampla divulgação de informação científica e o compartilhamento de recursos em nível global. É necessário cuidado e reflexão ante a afirmações fáceis, que tem o apelo adicional de vir em forma de meme. Falsas premissas podem levar a corolários assustadores. O respeito à vida humana deve se estender a todas as vidas, sob o risco de acabarmos inadvertidamente legitimando posições autoritárias. O ecofascismo não existiu plenamente no passado, mas suas sementes foram plantadas histórica e intelectualmente. Todo cuidado deve ser tomado para que não floresçam em tempos de exceção. Parafraseando Cronon, podemos dizer que o espectro do ecofascismo “é uma ameaça ao ambientalismo responsável” do início do século XXI.


[1]https://www.newyorker.com/news/news-desk/seouls-radical-experiment-in-digital-contact-tracinghttps://www.vice.com/en_in/article/qjd9ew/coronavirus-surveillance-privacy-india

https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-03/governo-restringe-entrada-de-estrangeiros-por-voos-internacionais

https://www.publico.pt/2020/05/18/mundo/noticia/orban-vai-continuar-governar-hungria-decreto-ate-junho-1917009

https://www.cmjornal.pt/mundo/detalhe/bolsonaro-publica-decreto-que-o-isenta-de-responsabilidades-por-erros-ou-omissoes-no-combate-ao-coronavirus

[2]Zimmerman e Toulouse, 2016. https://www-jstor-org.proxy.library.georgetown.edu/stable/pdf/j.ctt15zc5kw.25.pdf?refreqid=excelsior%3Ada09b2f67d10f4c769a0604176aba4af

[3]Armieiro e Von Hardenberg, 2013. https://www-jstor-org.proxy.library.georgetown.edu/stable/pdf/43298499.pdf?refreqid=excelsior%3A8c38bc6fd71a067f5fb23a7556a99328

[4]https://en.wikipedia.org/wiki/The_Population_Bomb

[5]Ramachandra Guha. Radical American Environmentalism and Wilderness

Preservation: A Third World Critiquehttps://www.uky.edu/~rsand1/china2017/library/Guha.pdf

[6]https://www.nytimes.com/1995/08/13/magazine/the-trouble-with-wilderness.html

[7]https://www.vice.com/en_uk/article/n7jmmx/extinction-rebellion-fake-coronavirus-posters

[8]https://www.bitchmedia.org/article/world-on-fire/ecofascist-messaging-is-increasing-during-coronavirus-pandemic

[9]https://theconversation.com/beware-far-right-arguments-disguised-as-environmentalism-134830

[10]https://exame.com/ciencia/todos-contaminados-por-covid-19-o-risco-da-imunidade-de-rebanho/

[11]https://istoe.com.br/marcao-do-povo-sugere-campo-de-concentracao-para-infectados-pelo-coronavirus/

Comments

  1. Giselle Otoya says:

    Perfeita sua abordagem, Natascha! Sensacional.
    Um texto ultra atual, claro, direto com muitas referências históricas o que torna a leitura fascinante!

    Um deleite para nosso intelecto em momentos que pensar e ter opinião valem tanto ou mais que ouro.

    Sucesso para você, aguardando a publicação do seu livro em breve!
    Com carinho, Gi Otoya

  2. Marcus says:

    Muito obrigado pelas reflexões que você registrou no artigo, Natascha Otoya . O conceito de “Ecofascismo” é uma relevante contribuição para nós, professores de História da Educação Básica, desenvolvermos as aulas sobre a crise pandêmica que estamos vivenciando hoje em dia. Abordagem fundamental para um ensino de História “ecologizante”. A partir de uma perspectiva histórico ambiental, poderemos contribuir para que os debates acerca das relações entre os humanos e a natureza ao longo do tempo se faça presente no chão da escola.

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